26.6.16

let me go

ela só queria silêncio e quietude, a ilusão de um sentimento que remetia á paz. mas a outra estava sempre lá, e falava alto demais, ouvia alto demais, batendo portas e talheres desnecessariamente. o barulho era sua paz, seu único conforto, como culpá-la por isso?

mas ela não tinha mais forças para viver cada dia da mesma forma, não tinha forças para os barulhos e gritos e lamentações e talheres, e as palavras, aquelas palavras cruéis, ferinas e diárias, que há tanto havia decorado.

ela já não ouvia sentenças, mas zumbidos. sentia que uma colméia inteira havia se instalado em seu ouvido. o zumbido constante, sem fim, sem fim. a outra, abelha rainha.

como escapar desse labirinto, desse minotauro que forçou entrada no corpo dela e criou-se a espera da carnificina.

como escapar dos fantasmas de pele e osso que nos habitam?