19.3.16

poemas de um diário antigo que nem sei se são meus

I.

o teu nome enfeita a minha língua
que por sí só sorri à tua boca
nas ruas do teu corpo e do meu
que andarilha me levo
a passear

e hei de deduzir a minha idade
porque sou flor do campo
sou o eterno movimento dos peixes
em cada linha nova
que escreve teu rosto

são nessas manhãs
amassadas de esperança
em que deus é só mais um prato à mesa
que dos meus cabelos se desprendem
uma declaração de amor.

e o que mais ia escrever só cabe dito
entre minha boca e teu ouvido.

II.

completude me faz falta:
é um monstro híbrido de quatro pernas e braços, 20 unhas a se marcar nas duas costas brancas enfeitadas de cor de mar entre as cobertas de uma cama invernal, e duas cabeças a flutuar.

III.

se alguém nesse mundo quiser me presentear
trate de comprar um caderno de amor,
para amor se fixar.

IV.

a dor
se entrelaçando
aos fiapos do meu coração
em nós
já não consigo distinguir
ou entender
como esse trapo de bandagens e ataduras
ainda existe
em mim.

V.

o monstro do amor comeu meus intestinos
e agora só me resta uma dor
fina no ombro direito.

VI.

estou em queda livre
meus dedos sem ossos
parecem minhocas
a voar.

presa fácil
para pássaro de bico grande e
patas largas.

VII.

braços finos
esperando a morte
olhos negros
que me fitam por dentro
as entranhas vazias
sem vida
sem nexo
sem sexo
morte por pílulas
ingestão fatal
nem teu membro duro
de cão no cio
com fome de prazer
puderam
ressuscitar-me.